A nova rotina do projeto era exigente, mas ela estava no controle. Como líder técnica, coordenava squads, definia escopos, validava entregas e fazia a ponte entre o time interno e o cliente — representado por ele.
O dia a dia era marcado por cerimônias ágeis: dailies objetivas, plannings com foco em valor, reviews com métricas claras e retros sinceras. Ela dominava o Jira, organizava os épicos com precisão, e mantinha o backlog sempre priorizado. O time a respeitava, confiava em suas decisões, e ela entregava com consistência.
Mas havia algo que escapava ao controle: a presença dele.
Antes, eles compartilhavam detalhes técnicos com naturalidade, discutiam sobre versionamento semântico, estratégias de deploy blue-green, refatoração orientada a testes, e até sobre o uso de feature flags para mitigar riscos em produção. Agora, tudo era formal. Ele validava histórias com objetividade, cobrava critérios de aceite com firmeza, e mantinha o tom neutro em todas as interações.
Ela se via diante de um paradoxo: admirava o profissional que ele havia se tornado, mas sentia falta do homem que sabia ler seus silêncios. E o fato de ele não demonstrar nenhum afeto mexia com ela mais do que gostaria de admitir.
— Ele não é mais o mesmo — pensou, após uma reunião em que ele elogiou o fluxo de integração, mas sem sequer olhar nos olhos dela.
A ausência da “velha atenção” que antes existia tocava seu ego. Ela, que agora era referência, que liderava com firmeza e empatia, sentia-se invisível diante dele. E isso a incomodava. Não por vaidade, mas por memória.
Começou a se perguntar se ele havia apagado tudo. Se o tempo havia transformado o que eles viveram em algo irrelevante. E, ao mesmo tempo, sentia-se atraída por essa nova versão dele: segura, contida, quase impenetrável.
Naquela noite, ela escreveu no caderno:
“O que mais me confunde não é o que ele mudou.
É o que ele não diz.
E talvez, o que ele não diz, seja exatamente o que ainda existe.”
O projeto seguia. As entregas aconteciam. Mas, dentro dela, um sprint emocional havia começado, sem planejamento, sem backlog, sem garantia de entrega.
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