O primeiro dia dela na empresa não foi memorável para ninguém, exceto para ele.
Ela chegou com um notebook antigo, um olhar atento e uma postura que misturava
firmeza com curiosidade.
Não era sobre beleza. Era sobre presença.
E ele, que sempre foi distraído com gente nova, percebeu.
— Você é nova aqui? — ele perguntou, encostado na divisória
da baia, com um café na mão e um código quebrado na tela.
— Sou. Mas não gosto de parecer — ela respondeu, sem tirar
os olhos do monitor.
Ele sorriu.
Não pelo que ela disse, mas pelo jeito como disse.
Como quem já sabia que não estava ali para agradar — estava ali para construir.
O projeto era complexo.
Uma integração entre sistemas legados e uma nova API que ninguém entendia
direito.
Ela entendeu.
Em dois dias, ela já corrigia erros que ele demorava semanas para identificar.
— Você tem um jeito estranho de resolver problemas — ele
disse, observando o terminal dela.
— E você tem um jeito previsível de criá-los — ela
respondeu, sem ironia, mas com precisão.
A equipe começou a notar.
Não só a competência dela, mas a frequência com que os dois se encontravam em
reuniões, corredores, silêncios.
Não havia toque.
Mas havia tensão.
Na sexta-feira, ela fez o primeiro deploy.
Sem erro.
Sem rollback.
E ele, ao ver o sistema rodando, sentiu algo que não sabia nomear.
— Você chegou e tudo começou a funcionar — ele disse, quase
sem querer.
— Às vezes, o que falta não é código. É alguém que veja o
sistema inteiro — ela respondeu.
Não como paixão.
Como pertencimento.
Comentários
Postar um comentário