Era terça-feira, e o clima no escritório estava mais frio do que o ar-condicionado conseguia justificar.
Ela passou por ele no corredor, os olhos rápidos, o sorriso protocolar.
Ele sentiu.
Não o olhar, a ausência dele.
— Você está diferente — ele disse, ao encontrá-la na copa.
— Estou focada. O projeto exige — ela respondeu, sem olhar nos olhos dele.
Ele tentou sorrir.
Mas o sorriso não encontrou espaço.
— A gente não conversa mais — ele disse.
— A gente nunca conversou tanto assim. Você só achava que sim — ela respondeu, com uma calma que doía mais que qualquer grito.
Ele se calou.
Porque ali, naquele instante, ele entendeu: ela estava se afastando.
Não por raiva.
Mas por falta de corpo.
— Você não sente mais? — ele perguntou, quase num sussurro.
Ela parou.
Virou-se devagar.
O olhar dela era firme, mas sem brilho.
— Eu sinto. Mas não toco. E o que não se toca, uma hora, deixa de existir.
Ele queria dizer que o amor deles era mais que físico.
Que o pertencimento não precisava de pele.
Mas ela já tinha virado as costas.
E naquele dia, ele entendeu:
o que os unia estava virando lembrança.
E lembrança não aquece.
Só ecoa.
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