Era quinta-feira, e o espelho do banheiro da empresa estava embaçado.
Ela se olhava sem se ver.
O rosto cansado, os olhos atentos, o coração em modo de espera.
Ele entrou devagar, como quem respeita o espaço, mas não ignora a presença.
— Você está bem? — ele perguntou, sem rodeios.
— Estou funcional. Às vezes, é o suficiente — ela respondeu.
Ele se aproximou, mas não tocou.
Ficou ao lado, olhando para o mesmo espelho, como quem tenta entender o reflexo
dela antes de entender o próprio.
— Você já se sentiu parte de algo que não sabe nomear? — ela
perguntou.
— Sim. E toda vez que tento dar nome, parece que diminui —
ele respondeu.
Ela sorriu.
Mas era um sorriso triste.
Como quem sabe que o que sente não cabe em palavras, só em gestos.
— Eu não sei o que somos — ela disse.
— Talvez não sejamos. Talvez só pertençamos — ele respondeu.
O silêncio entre os dois era íntimo.
Como uma linha de código que só funciona quando está junto da outra.
Como uma função que só faz sentido quando chamada pelo nome certo.
Ela virou-se para ele.
O olhar dela dizia tudo.
E ele, pela primeira vez, não tentou traduzir.
Porque há sentimentos que não precisam ser entendidos, só
vividos.
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