Era quarta-feira, e o café da empresa estava mais vazio do que o normal.
Ela chegou com o cabelo preso e um olhar distante.
Ele já estava lá, sentado à mesa de sempre, com um café que esfriava lentamente,
como fazia toda vez que ela demorava.
— Você sempre pede e não bebe — ela disse, sentando-se sem
pedir licença.
— É só desculpa pra esperar você — ele respondeu.
Ela sorriu.
Mas não era um sorriso leve.
Era um sorriso que carregava cansaço, saudade e uma pergunta que ainda não
tinha coragem de fazer.
— Hoje foi difícil — ela disse, mexendo na xícara como quem
tenta reorganizar os pensamentos.
— O sistema ou você? — ele perguntou.
— Eu. O sistema só reflete.
Ele a olhou com atenção.
Como quem lê um código complexo e entende que o erro não está na sintaxe — está
na lógica.
— Você não precisa fingir que está tudo bem comigo — ela
disse, sem olhar.
— Eu não finjo. Eu só fico — ele respondeu.
O silêncio entre os dois era confortável.
Como uma pausa entre comandos.
Como um espaço onde o amor não precisa se provar, só existir.
Ela encostou a cabeça no ombro dele.
Ele não se mexeu.
Porque há gestos que não pedem resposta, só presença.
Mas o que havia entre eles continuava quente.
Como um código que nunca foi documentado, mas que funciona perfeitamente quando os dois estão juntos.
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