Era terça-feira, e o sistema estava instável.
Não por falha técnica, mas por excesso de gente tentando resolver o que não
entendia.
Ela estava concentrada, os fones no ouvido, o código fluindo como se fosse
música.
Ele se aproximou sem falar.
Sentou-se ao lado, abriu o notebook, e ficou em silêncio.
— Você não vai perguntar nada? — ela disse, sem tirar os
olhos da tela.
— Não. Hoje eu só quero compilar o que você não diz — ele
respondeu.
Ela parou.
Tirou os fones.
O olhar dela era direto, mas não defensivo.
— E o que você acha que eu não digo?
— Que você sente mais do que mostra. Que você quer ficar,
mas tem medo de ser parte de algo que não controla.
Ela não respondeu.
Mas também não desviou o olhar.
Porque ele estava certo.
Naquela tarde, eles não falaram sobre o sistema.
Falaram sobre música, sobre infância, sobre o que os fazia continuar mesmo
quando tudo parecia travar.
— Você é diferente — ela disse, quase como uma constatação.
— E você é o tipo de pessoa que me faz querer ser — ele
respondeu.
O sistema voltou a funcionar.
Mas eles continuaram ali.
Porque há silêncios que não são ausência, são presença.
E naquele silêncio, algo foi compilado.
Não no código.
No coração.
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