O ar-condicionado do escritório fazia mais barulho do que efeito.
Era segunda-feira, e o centro de São Paulo pulsava lá fora com pressa, mas ali
dentro, o tempo parecia andar em outra frequência.
Ela digitava com precisão, os olhos fixos na tela, como quem decifrava mais do
que comandos.
Ele observava de longe, fingindo revisar um backlog que já conhecia de cor.
— Você sempre trabalha assim? — ele perguntou, se
aproximando com um café na mão.
— Assim como? — ela respondeu, sem tirar os olhos do
terminal.
— Como quem está resolvendo algo que ninguém mais vê.
Ela parou.
Virou-se devagar.
O olhar dela era firme, mas não frio.
— Talvez eu esteja — ela disse. — Nem todo bug está no
sistema.
Ele sorriu.
Não pelo que ela disse, mas pelo que ela não disse.
Porque havia algo ali — uma camada que não estava no código, mas no silêncio
entre os comandos.
Naquela tarde, eles ficaram até mais tarde.
O projeto exigia.
Mas o que os mantinha ali não era só trabalho.
— Você acredita que duas pessoas podem se reconhecer antes
de se conhecer? — ele perguntou, enquanto revisavam uma linha de integração.
— Acredito. Mas só se uma delas tiver coragem de admitir —
ela respondeu.
Ele não respondeu.
Só olhou para ela como quem já sabia.
Como quem já sentia.
Não no sistema.
Neles.
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