Era quarta-feira, e o ambiente já não era o mesmo.
Ela chegava cedo, saía no horário, evitava os corredores onde ele costumava estar.
As conversas agora eram sobre entregas, prazos, reuniões.
Nada mais sobre música, café ou silêncio.
Ele tentou se aproximar.
Com cuidado, com respeito, com saudade.
Mas ela já havia redefinido o espaço entre eles.
— Precisamos revisar o fluxo da API — ela disse, sem olhar nos olhos dele.
— Claro. Podemos conversar depois da daily? — ele sugeriu, tentando encontrar brechas no profissionalismo dela.
— Prefiro que seja por e-mail. Fica mais objetivo — ela respondeu, com uma firmeza que cortava.
Ele assentiu.
Mas por dentro, algo quebrava.
Não era só o vínculo — era a esperança.
Naquela tarde, ela apresentou uma proposta de arquitetura nova.
Clara, eficiente, sem falhas.
Ele elogiou.
Ela agradeceu, como se fosse qualquer outro colega.
Mais tarde, ele a encontrou na copa.
O mesmo lugar onde antes bastava um olhar para que tudo fizesse sentido.
— Você está distante — ele disse, com a voz baixa, quase implorando por uma fresta.
— Estou lúcida — ela respondeu. — E agora, isso é tudo que importa.
— Eu achei que a gente tivesse algo — ele disse, quase num sussurro.
Ela parou.
Virou-se devagar.
O olhar dela era firme, mas sem calor.
— Eu também achei.
Mas você nunca fez nada concreto.
Nenhum gesto. Nenhuma escolha.
Só palavras.
E eu cansei de esperar por algo que só existe na sua cabeça.
Ele quis dizer que o amor deles era mais que físico.
Que o pertencimento não precisava de pele.
Mas ela já havia virado as costas.
E naquele dia, ele entendeu:
ela não o odiava.
Ela só havia decidido seguir.
Sem ele.
Porque o amor que não se toca, uma hora, deixa de existir.
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